Agosto 06, 2011

Afinal, como ser feliz?

A felicidade é o destino último da maior parte das acções humanas. Pensamos, sentimos, agimos com a finalidade de alcançarmos esse bem supremo, desconhecendo que, na realidade, o mesmo reside dentro de cada um de nós. Infelizmente, romantizamos de tal modo a felicidade que a temos como algo inalcançável, ou, quando alcançável, algo que não é duradouro. Nesse aspecto, estou de acordo: a felicidade não é duradoura na medida em que não é um modo de estar permanente. Não somos felizes, temos momentos felizes. Se soubermos estar atentos, para percebermos o que nos faz sentir felizes, porque, de outra forma, podemos ter a sensação de que somos miseráveis e que o sorriso apenas assiste aos outros.
Mas, afinal, o que nos faz felizes?

Creio existirem duas formas de abordar esta questão:
1) Para os que vêem a felicidade como fim último, como conquista final, os requisitos para se ser feliz talvez sejam o que a maior parte das pessoas deseja: uma casa, um carro, um trabalho satisfatório e bem remunerado, umas férias num destino paradisíaco diferente todos os anos e toda uma série de bens e/ou produtos que permitem um modo de vida “feliz”.

2) Para os que procuram a felicidade dentro de si mesmos, os que sabem estar atentos, por um lado, ao que os rodeia e, por outro, às respostas que dão aos estímulos externos, a felicidade reside noutros aspectos. E estes normalmente são insignificâncias a que grande parte do mundo não presta atenção. O prazer de sentir o perfume de uma rosa que alguém especial nos ofereceu, de ficar parado num qualquer lugar, observando o modo como a vida se desenrola à nossa volta, seja no meio da Natureza, seja no meio da maior azáfama imaginável. Poder correr e rebolar num campo relvado, com uma sensação de liberdade inigualável. Fechar os olhos e ouvir aquela música que nos eleva. Ir para um descampado, olhar o céu, na tentativa de encontrar as constelações, enquanto se bebe um Nescafé que, por precaução, levamos num termos. E tanto, tanto mais…

Diria que a felicidade, para o primeiro grupo, é facilmente entendida como inatingível, porque se baseia no concreto, no material, naquilo que muitas vezes se pensa que poderá proporcionar uma existência mais completa. Para o segundo grupo, pelo contrário, a felicidade, não sendo um fim, é frequentemente encontrada, fragmentada em pequenos momentos que nos vão alimentando a alma.

“Mas isto não é novidade nenhuma!” De facto, não é. No entanto, não deixa de ser curioso o facto de, em termos gerais, nos dedicarmos de corpo e alma a uma série de coisas que não nos fazem felizes no imediato, mas esperamos que nos conduzam à felicidade suprema no fim da viagem.

Assim, de repente, lembrei-me do poema “Ítaca”, de Konstantinus Kavafys (ou algo parecido), em que a mensagem que o poeta transmite é precisamente essa. Ítaca é o destino da viagem, mas é no percurso que devemos concentrar a nossa atenção, porque, uma vez chegados a Ítaca, nada mais teremos para aprender. É, por isso, fundamental que aproveitemos para o fazer enquanto caminhamos. E aprender implica também saber reconhecer a felicidade que encontramos em determinados momentos do caminho.

No meu entender, perdemos a consciência de que somos mortais. Havia alguém que dizia que as duas coisas mais belas da Vida são o Amor e a Morte. E, de certa forma, assim é. Ter consciência da Morte, de um fim que temos como absolutamente certo, pode ajudar-nos a ver a viagem com outros olhos. Todavia, a nossa sociedade marginaliza a Morte, não quer contactar com ela, não quer sequer imaginar a sua presença. Mas seria interessante ver até que ponto os hábitos de vida se alterariam se essa tomada de consciência acontecesse.

É fácil encontrar por aí, nos tempos que correm, a expressão “Carpe Diem”, “Seize the day”, “Vive o dia” (como se fosse o último), mas, na verdade, muitos desconhecerão que a mensagem veiculada é precisamente a necessidade de viver tudo todos os dias, buscando a satisfação plena a cada dia. É difícil deitarmo-nos todos os dias satisfeitos com o dia que vivemos. E é difícil porque, na maior parte dos dias, nos limitamos a existir, a marcar presença. Esquecemo-nos de viver, de sentir, de questionar, de falar, de amar. E os dias vão passando…

Ser feliz… Poder olhar para trás e ter a sensação de que se viveu tudo o que se poderia ter vivido até ao momento, o bom e o mau. Aprender todas as lições que a Vida nos quer ensinar. Estar atento, com o objectivo de aprender a estar em comunhão com todos os seres dotados de vida. Nunca desistir de mudar alguma coisa, principalmente o que temos de menos bom. Cada uma dessas consecuções poderá constituir um momento de felicidade extrema, se assim o quisermos…

E, subitamente, dou por mim já a divagar demasiado… Fico-me por aqui.

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