Envelhecer é, hoje em dia, um processo doloroso para muitos dos seres humanos que habitam o mundo - ia dizer que o era para a maior parte, mas lembrei-me, de imediato, dos milhões que vivem em países em que envelhecer é, sobretudo, uma miragem… Nos países ditos desenvolvidos, porém, o avançar da idade representa um percurso de tortura, ideia resultante da mentalidade fútil que predomina na nossa sociedade e que submete as pessoas a uma ditadura de beleza verdadeiramente estúpida.
Envelhecer é bom. Pelo menos, se, nesse processo soubermos crescer, aprender e conhecermo-nos a nós mesmos. Cada idade tem o seu encanto - excepto a fase da adolescência, que, como fase de transição necessária, é uma valente porcaria. E saber viver cada idade de acordo com as capacidades que temos e com as expectativas que criamos em relação a nós e aos outros e com as que os outros criam em relação a nós é fundamental para que sintamos que damos os passos certos e que estamos a aprender as lições que a Vida nos quer ensinar. Errar faz parte do percurso. Sofrer também. Ganhar rugas e cabelos brancos também. Com o passar do tempo, é de esperar que a beleza física dê espaço à sabedoria e que as prioridades se vão alterando. Só assim envelhecer se torna um processo positivo, natural e enriquecedor.
A idade ensina-nos muito, torna-nos mais fortes e mais seguros. Mais duros também, por vezes. Traz-nos uma série de problemas de saúde terminados em -ite. O tempo deixa-nos no corpo marcas indeléveis, mas povoa a nossa mente com uma riqueza extraordinária. À medida que a idade avança, aprendemos a valorizar o que sempre nos pareceu banal, porque percebemos que o lado melhor da vida reside nas coisas mais simples, que despertam boas emoções e nos fazem sorrir.
É engraçado olhar para trás e perceber como a concepção do mundo que nos rodeia foi mudando ao longo do tempo, desde a infância; como fomos alterando naturalmente as nossas prioridades; como fomos apurando os nossos gostos. Sobretudo, como aprendemos a valorizar o tempo e a saber aproveitá-lo. Perdemos a sensação de que somos imortais e de que nunca nada de mal nos acontecerá. Passámos a preocupar-nos mais com os outros. Temos noção de que, à medida que a idade avança, teremos como certa a perda de pessoas de quem gostamos e que contribuíram para o que somos e para a nossa forma de estar na vida. De certo modo, envelhecer (e não fugir desse processo) torna-nos mais humanos, mais atentos aos outros, melhores apreciadores de momentos especiais, da amizade simples e sincera, de coisas tão simples como sentar à mesa com meia dúzia de amigos (se forem tantos) a saborear um bom prato de bacalhau e um bom vinho - apenas um exemplo de algo que, para mim, não tinha qualquer importância há quinze anos atrás…
Envelhecer faz-nos também perceber o quanto outros fizeram, fazem ou farão por nós, do quanto terão abdicado por nós, como nos colocaram no centro das suas vidas, como se dedicaram a nós, como nos presentearam com parte do seu tempo precioso…
E por que venho para aqui falar disto agora? Por uma razão muito simples: infelizmente, nem todos sabemos respeitar as opções de vida de cada um. Por vezes, podemos cair na tentação de julgar os outros e as suas acções pelo nosso código de conduta, que poderá não ser o melhor. Ou, como ainda hoje li numa página do Facebook, em termos gerais, as pessoas representam o papel que a sociedade quer que representem, ou seja, casam e têm filhos, passando o resto da vida a tentar convencer os outros de que são felizes e se sentem realizados (acrescentaria também o carro topo de gama e a casa que deve ser tão maior quanto possível e ricamente mobilada - nem que isso implique um crédito assustador que terá de ser pago até ao fim da vida). Na verdade, contudo, vivem vidas com as quais não se identificam, sentem-se insatisfeitas e, de vez em quando, num raro acesso de coragem, confessam que, se pudessem voltar atrás, fariam tudo diferente.
E eu escrevo agora sobre isto, porque, como me tem sido transmitido com uma certa frequência, eu não estou a representar muito bem o papel que a sociedade queria que eu representasse (usando uma expressão muito em voga, temos pena!). Todavia, posso afirmar com toda a segurança que, se voltasse atrás no tempo, faria tudo exactamente igual, não mudava uma vírgula!

4 ideia(s) solta(s):
Liliana,
adorei o texto.
Também sinto a pressão da sociedade para ter uma vida mais convencional: "Quando é que casas?" é a pergunta à qual eu já nem respondo, mas que me continuam a fazer. Como também já amadureci um pouco, agora sei que o problema não é meu. O problema é das pessoas que não têm nada mais interessante para dizer. Por isso deixo-as falar e continuo com a minha vida.
Envelhecer bem é tão bonito. Adoro e admiro pessoas com mais de 65 anos cheias de vitalidade, mas assumindo os seus lindos cabelos brancos, as suas rugas de expressão e principalmente o seu estato, à tanto tempo perdido, de sábio, de pessoa que viveu e aprendeu e por isso tem muito que ensinar.
Bjs
@Isabel
Exactamente! O problema é das pessoas...
Ainda hoje, numa pequena viagem de carro, vinha a pensar: "Mas como é possível que haja tanta gente que se limita a existir, em vez de viver?"
Já reparaste como há tanta gente que se deixa absorver por uma rotina sempre igual, fazendo já as coisas mecanicamente e sempre comandadas pela ditadura do relógio? Onde, na vida dessas pessoas, há espaço para a magia, para o inesperado? Não há. E depois eu é que tenho uma vida sem sentido... Bolas!
Eu também gostei muito do texto e identifiquei-me com cada palavra :)
Um beijo.
@Giovana
Ainda bem. :) Beijo
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