O dia amanheceu cinzento, triste. Um dia de Outono, supostamente. Não fossem as máquinas a trabalhar nas obras da estrada e seria como se tudo estivesse adormecido.
Aquando do café matinal, a notícia: mais um que o cancro impiedoso levou. Mais uma morte precoce de quem ainda teria muito para viver, muitas alegrias para dar, muitos sonhos para cumprir. Quando se trata de quem não conhecemos, apenas lamentamos. Afinal, a doença maldita já tem levado tantos, novos e velhos… Mas tratando-se de alguém que conhecemos, fica um aperto no coração. Partilha-se, em silêncio, a dor dos que sofrem pela sua partida. Recordam-se os momentos em que os sorrisos viviam estampados no rosto - no dele e no dos seus…
E, de repente e mais uma vez, somos obrigados a assentar bem os pés na terra, a tomar consciência da nossa efemeridade, a lembrar que a vida que temos é para ser vivida, não desperdiçada, como tantas vezes fazemos.
Os sonhos vivem em nós, a felicidade também. E tantas são as vezes em que nos esquecemos disso. Tantas as vezes em que, em lugar de abrirmos o coração aos sentimentos mais nobres que a vida nos oferece, preferimos fechá-lo a todo e qualquer sentimento que nos “prenda” a alguém, que nos faça criar laços. É certo que, se desistirmos de sentir, estas partidas tornam-se mais fáceis de suportar. Mas, por outro lado, sentir a morte dos que vão também nos torna mais humanos, mais solidários, mais conscientes da nossa fragilidade e do quão breve é a nossa existência. Melhor assim, mesmo que isso implique sofrer.
Não era sobre isto que queria escrever hoje. Tinha assuntos mais animados e mais animadores, mas seria um contra-senso.
A A. M. (RIP)
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