Outubro 26, 2011

Crónicas de um dia de chuva

Tempinho de chuva (e trovoada). Bom, bom era não ter nada para fazer e mergulhar nas mantas, a ver um filme e a comer pipocas. Ainda há quem não goste do frio… Pfff! E ouvir a chuvinha a cair lá fora, hein? Digam lá se não sabe bem? Apanhá-la pelas costas abaixo não é agradável, concordo (a menos que seja uma daquelas chuvadas de Verão, que deixam aquele cheiro bom a terra quente molhada no ar), mas para evitar esses momentos desagradáveis houve algum visionário que um dia inventou um objecto designado guarda-chuva, certamente sem imaginar sequer que um dia alguma cantora pop haveria de ganhar muita massa à custa do mesmo… Se não gostam de andar de guarda-chuva, o problema já é vosso e, em relação a isso, nada posso fazer. Adiante!
Isto do S. Pedro se zangar um bocadito de vez em quando, tem o seu lado positivo, contudo. Senão, vejamos: desde segunda-feira, as únicas conversas de circunstância que tenho tido são sobre o tempo, quando, há uma semana atrás, apenas se centravam num assunto: a malfadada crise. Maravilha! Digo eu, que evito gastar demasiado tempo com coisas tristes. É certo que o facto de não estar com a corda na garganta, como muito boa gente, ajuda a que assim seja. Ganhar pouco tem as suas vantagens: não dá para sonhar muito alto. Ou, melhor dizendo, dá para sonhar ainda mais alto, sendo que os sonhos até são mais fáceis de concretizar, visto não dependerem do vil metal. Obviamente, nem todos temos as mesmas ambições na vida e cada um sabe como prefere viver enquanto por cá anda. Contudo, acho estranho que, cada vez mais, as pessoas, em geral, não se importem de trabalhar mais, ou até de terem mais do que um emprego, só para poderem manter um determinado estatuto, para poderem ter “aquela” casa e “aquele” carro, para poderem vestir “daquela” loja e poderem pôr os filhos “naquele” colégio. Já aqui há tempos escrevi sobre o que considero ser essencial para ser feliz, por isso não me vou deter neste assunto.
Há quem não entenda o facto de eu ser optimista perante a vida, quando se vê a desgraça que por aí vai. Acredito que, para algumas pessoas, possa parecer loucura. Se calhar, até é! Mas, se for, posso dizer que a loucura é reconfortante. Deixem-me dizer-vos, porém, que não é difícil ser optimista. Em primeiro lugar, é preciso acreditar que nem sempre a vida corre mal e o modo como reagimos ao que nos acontece desencadeia uma série de reacções que não percebemos e que irão afectar acções e reacções futuras. Ainda hoje falei no quanto pode dizer de nós o modo como reagimos a um dia de chuva… Se optamos por sair de casa aborrecidos porque está a chover, é muito natural que o dia acabe por ser chato e a nossa disposição não seja das melhores. Mas se, pelo contrário, encararmos o dia de chuva como outro qualquer, mesmo que esteja frio, talvez os acontecimentos do dia sucedam de modo a fazer jus à boa energia que transmitimos. E, afinal, há tanta coisa que se pode fazer num dia de chuva, sem haver necessidade de ficarmos ensopados até ao esqueleto… Não custa encarar a vida de modo positivo, sobretudo se aprendermos a dar valor ao que nos parece insignificante.
Há uns dias, numa conversa com um antigo colega de trabalho, já aposentado, falávamos de como as pessoas aprendem a dar outro valor à existência quando confrontadas com a sua própria fragilidade. É comum haver experiências que nos “abanem” e nos façam ver o mundo com outros olhos. E isso é bom. E melhor ainda quando “acordamos” suficientemente cedo para ainda aproveitarmos boa parte da viagem. Não pensem que é treta. Não é. Não me canso de dizer que são tantas as vezes em que achamos que estamos mal, quando, na verdade, estamos bem melhor do que alguma vez pensámos. Infelizmente, somos diariamente bombardeados com sonhos caros, através de todos os meios de comunicação, o que acaba por fortalecer as tendências materialistas. Mas a vida não se mede pelo que temos, mas pelo que vivemos. Temos o que comer - e comemos demais - quando há um bilião de pessoas para quem a comida é uma miragem. Temos uma casa, um carro (em muitos lares, são dois, ou três, ou quatro), quando, não há muitos anos, as pessoas faziam quilómetros e quilómetros a pé. Não, não quero comparar épocas de certa forma distantes no tempo. Apenas lembrar. Imaginam quantos pobres (mesmo pobres) existem no mundo? Imaginam o mal que fazemos ao planeta com a nossa obsessão de ter tudo e mais alguma coisa? Têm noção de quantos animais são mortos diariamente para satisfação de certos caprichos nossos? Enfim, poderia continuar, mas nunca mais sairia daqui.
Só resolvi desabafar um bocadito porque me incomoda toda a celeuma por causa de uma crise que, bem analisada, significa apenas que temos de reavaliar os nossos hábitos, até percebermos o que é necessário mudar. E acreditem que é necessário mudar! Aliás, isto só lá vai com uma mudança generalizada, na maneira de estar na vida e nos padrões comportamentais. De outro modo, continuará a pescadinha com o rabo na boca…

Enough is enough! Por aqui fico. E aviso: vou continuar a ser optimista e a chatear as pessoas com a minha felicidade e a lembrar que há vida para além dos cifrões e que, ainda que pareça impossível, temos muito e não damos valor a nada. Se, um dia destes, quiserem fazer parte da revolução da alegria (Anocas, baci per te!), juntem-se aos que não desanimam e teimam em viver alegres e bem-dispostos. Só mais uma coisita: têm reparado no arco-íris, na Lua, nas folhas, nas formas das nuvens, nos campos vazios onde há pouco havia milho, nas videiras que quase já não têm folhas, nos trevos que abundam nos quintais e nos campos? Não? Eu tenho! E olhem que vale a pena! ;)

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